Deus Santo, Vós sois a interioridade máxima do Universo. No ponto onde termina a nossa interioridade espiritual limitada, começa a vossa interioridade ilimitada. Isto quer dizer que sois um Deus sempre presente. O ponto de encontro entre nós e vós, Deus Santo, é o coração de cada ser humano.
O Espírito Santo é a pessoa divina que nos põe em Comunhão convosco, Pai Santo, e com o vosso Filho, incorporando-nos na Família Divina. Com o seu jeito maternal de amar leva-nos a clamar por vós, Pai, gritando: “Abba”, ó Pai! (cf. Rm 8, 14-15). Por isso São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
Apesar de estardes tão próximo, nunca nos invadis, Deus Santo. Sois Amor, diz a Primeira Carta de São João (1 Jo 4, 7-8). Eis a razão pela qual nos tomais tão a sério. De facto, nunca nos manipulais nem jogais connosco. Estais connosco, mas respeitais sempre a nossa autonomia.
Por outras palavras, estais connosco mas não estais em nosso lugar. A vossa presença junto a nós é dinâmica, criativa e amorosa. Sois uma Família de três pessoas, apesar de serdes um único Deus. Isto significa que o Uno, na Divindade, é a Comunhão. As pessoas constituem o plural do único Deus.
O mesmo acontece com a Humanidade: é una enquanto Humanidade, mas é plural enquanto pessoas. No coração de cada pessoa humana emerge a Humanidade de modo único, original e irrepetível.
Somos realmente a imagem e semelhança de Deus. A vossa presença no nosso íntimo acontece pelo Espírito Santo, a terceira pessoa da Família Divina. Quando abrimos o coração ao amor, o Espírito Santo torna-se em nós uma presença que nos faz renascer.
O nosso espírito é uma realidade viva a crescer e a fortalecer-se. Cresce dentro do nosso corpo como o pintainho dentro do ovo. A Bíblia identifica o Espírito Santo com o hálito da Vida Divina que nos faz emergir como seres espirituais.
Eis as palavras do Livro do Génesis: “Então o Senhor Deus formou o Homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o hálito da vida. Foi então que o Homem se transformou num ser vivo” (Gn 2, 7).
É deste modo que acontece a vossa intervenção especial na criação do Homem, a qual não aconteceu com nenhum outro ser. Eis o modo como Jesus explicou esta verdade a Nicodemos: “Em verdade em verdade te digo: quem não nascer do Alto, não pode ver o Reino de Deus” “Como pode um homem nascer sendo velho? - Perguntou Nicodemos - "Porventura poderá entrar de novo no ventre de sua mãe e nascer?"
Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo quem não nascer do Espírito Santo não pode entrar no Reino de Deus. Aquilo que nasce da carne é carne, e aquilo que nasce do Espírito é Espírito” (Jo 3, 3-6). Em Comunhão Convosco Calmeiro Matias
Deus Santo, glória a Vós, pois quisestes criar-nos como pessoas.
O animal gosta de brincar, mas não é capaz de celebrar, nem precisa de sentidos para viver.
Pelo facto de estar em realização histórica, a pessoa humana precisa de sentidos para viver e se construir.
Quando lhe faltam sentidos para viver, o ser humano entra em crise e pode mesmo pensar no suicídio.
Por estar a estruturar-se como ser histórico, a pessoa tem a capacidade de associar o passado com o presente e este com planos e sonhos de futuro.
Isto acontece assim porque a pessoa se sente a caminho de uma meta que se confirma em cada sucesso que vai concretizando ao longo da sua caminhada.
Por não ser uma pessoa em construção, o animal não tem esta consciência existencial, nem sente um apelo a actuar de acordo com valores.
Na verdade, os valores são apelos que a pessoa sente no sentido de se construir com sentido e poder realizar-se como pessoa consciente, livre, responsável.
Como ser em realização, a pessoa edifica-se de modo gradual, fazendo emergir o novo. Sempre que fazemos emergir o novo e o diferente, transcendemo-nos e tornamo-nos imagem de Deus.
Deste modo, sem deixarmos de ser os mesmos, vamos sendo de maneira sempre nova e diferente.
A pessoa humana é, realmente, um ser faminto de transcendência, pois tem fome de ser em plenitude. Eis a razão pela qual o homem não pode deixar de se pôr o sentido da vida.
Como não podemos viver sem sentidos, pomo-nos constantemente interrogações e porquês, sobretudo nos momentos mais sérios e difíceis da vida.
Quando uma pessoa perde os sentidos básicos da vida, deixa de ter razões para viver.
Assim como não se põe o sentido da vida, o animal também não tem consciência da sua morte. A consciência da própria morte é um dos estímulos mais profundos a levar a pessoa a colocar-se o sentido da vida.
Do mesmo modo, Deus não é uma questão secundária para as pessoas que pretendem humanizar-se, fazendo opções, escolhas, e projectos de realização pessoal.
A consciência universal da Humanidade evoluiu no sentido de se colocar a questão religiosa. Isto significa que a Humanidade, no seu todo, intuiu que não estamos a edificar para a morte.
Jesus Cristo trouxe a grande resposta a estas interrogações básicas do Homem: a sua ressurreição ensinou aos homens que a morte não tem a última palavra no que se refere ao projecto histórico da Humanidade.
Pelo mistério da Encarnação, o divino enxertou-se no humano e nós passamos a ser membros da Família de Deus.
Isto quer dizer que os seres humanos, ao darem o salto de qualidade para a vida pessoal, atingiram as condições necessárias para serem assumidos e incorporados na comunhão familiar da Santíssima Trindade.
Deus Santo, louvado sejais porque nos quisestes criar como pessoas, a fim de fazerdes uma aliança connosco!
Deus Santo, louvado sejais pela Nova e Eterna Aliança, esse sonho de amor que tivestes ainda antes de terdes criado o Universo e o Homem.
A Nova e Eterna Aliança já estava presente como fonte inspiradora no momento em que sonhastes criar o Universo e o Homem que o habita:
“Deus escolheu-nos em Cristo antes da fundação do mundo, a fim de sermos santos e irrepreensíveis na sua presença e vivermos no amor.
Predestinou-nos para sermos adoptados como seus filhos por meio de Jesus Cristo, de acordo com a sua vontade” (Ef 1, 4-5).
Este plano esteve oculto durante milénios, mas foi dado a conhecer na plenitude dos tempos:
“Agora podeis fazer uma ideia da compreensão que tenho do mistério de Cristo, o qual não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, em gerações passadas, como agora foi revelado aos seus santos Apóstolos e Profetas pelo Espírito Santo” (Ef 3, 4-5).
Deus Santo, Vós sois, na verdade, o Deus da Aliança, pois sois um Deus fiel e verdadeiro.
A Nova e Eterna Aliança representa a plenitude de um projecto querido por vós ainda antes de terdes iniciado a génese da Criação.
A Antiga Aliança foi um passo fundamental para conduzirdes a Humanidade até Jesus Cristo.
Mas o vosso plano criador tinha como meta e cúpula da Criação a Nova e Eterna Aliança.
A Antiga Aliança era o sinal da acção pedagógica do Espírito Santo que foi preparando a Humanidade para a plenitude dos tempos, introduzindo a Humanidade no único Reino de Deus, diz a Carta aos Efésios:
“Com efeito, Cristo é a nossa paz. De dois povos fez um só, anulando o muro da separação que os dividia: a Lei de Moisés com suas leis, normas e preceitos, a fim de criar um só Homem Novo com judeus e pagãos. Portanto, os pagãos já não são estrangeiros nem imigrantes, mas concidadãos dos santos e membros da Família de Deus” (Ef 2, 14.19).
O Novo Testamento repete várias vezes que a Antiga Aliança estava em função da Nova e Eterna Aliança:
“Antes de chegar a plenitude da Fé estávamos prisioneiros da Lei Mosaica. Por isso era preciso que a Fé se revelasse.
A Lei tornou-se o nosso pedagogo até Cristo, a fim de sermos justificados pela Fé. Agra já sois filhos de Deus, por isso não estais sob o domínio do pedagogo.
Já não há judeu ou grego. Não há escravo ou homem livre. Não há homem ou mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Ga 3, 23-29).
A antiga Aliança tinha como alicerce a Lei de Moisés, a qual se multiplicava em normas, preceitos, ritos e mandamentos que não tinham qualquer eficácia para a obtenção da salvação.
A Nova Aliança tem como alicerce o dom do Espírito, o qual realiza em nós a obra da salvação, diz São Paulo na Carta aos Gálatas:
“Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14).
Viver a dinâmica da Nova aliança significa deixar-se conduzir pelo Espírito Santo:
“Eis os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e auto-domínio. Contra tais coisas não há Lei” (Ga 5, 22).
A Antiga Aliança foi superada pela Nova e Eterna Aliança, tal como as metas que estão em função de um objectivo são superadas quando o objectivo é atingido.
De facto, a Nova Aliança não é uma simples continuidade em relação à Antiga, tal como Cristo não está apenas numa linha de continuidade em relação a Moisés.
Pelo contrário, a Nova e Eterna Aliança representa um salto de qualidade em relação à Antiga Aliança.
Com efeito, a libertação e a divinização do Homem, realizada pela Encarnação, não está numa simples continuidade em relação à libertação dos hebreus da escravidão do Egipto. Entre estes dois acontecimentos existe, na verdade, uma diferença qualitativa.
A libertação realizada pela Nova e Eterna Aliança tem o alcance de uma salvação definitiva, a qual implica a assunção e incorporação da humanidade na Família da Santíssima Trindade (Jo 1, 12-14).
Já no livro do profeta Ezequiel Deus promete ao povo uma Nova aliança, a qual será mais perfeita do que a Antiga:
“Lembrar-me-ei da Aliança que fiz contigo, no tempo da tua juventude e estabelecerei contigo uma aliança Eterna. Estabelecerei contigo a minha Aliança e então saberás que eu sou o Senhor, a fim de que te lembres de mim” (Ez 16. 60-63).
Segundo o profeta Jeremias, a Nova aliança assenta em novos alicerces, pois terá como fundamento um coração renovado pelo dom do Espírito Santo:
“Dias virão em que estabelecerei uma Nova Aliança com a casa de Israel e a casa de Judá, oráculo do Senhor. Não será como a Aliança que estabeleci com seus pais, quando os tomei pela mão para os fazer sair da terra do Egipto, aliança que eles não cumpriram, embora eu fosse o seu Deus, oráculo do Senhor. Esta será a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, depois desses dias, oráculo do Senhor: Imprimirei a minha Lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo.” (Jer 31, 31-33).
A Nova Aliança, não é escrita em tábuas de pedra, como a Antiga, mas será escrita no coração das pessoas.
São Paulo diz aos membros a comunidade de Corinto que eles são uma carta de Cristo, escrita pelo Espírito Santo, pois pertencem à Nova Aliança:
“A nossa carta sois vós, uma carta escrita nos nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. Sois uma carta de Cristo confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo. Escrita, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações.
Na verdade, é Deus que nos torna aptos para sermos ministros de uma Nova Aliança, não da letra, mas do Espírito, pois a letra mata, enquanto o Espírito dá vida” (2 Cor 3, 2-6).
Segundo o plano da Nova e Eterna Aliança, nós recebemos, através da ressurreição de Cristo, o dom definitivo da Salvação: o Espírito Santo que nos incorpora na Família de Deus (Rm 8, 14-17).
Deste modo, diz São Paulo, Cristo torna-se o primogénito de muitos irmãos (Rm 8, 29).
Deus Santo, no plano que sonhaste para a Humanidade, a salvação tem como meta a incorporação da Família Divina. A Comunhão Universal do vosso Reino, portanto, é constituída por três pessoas divinas, biliões de pessoas humanas e todas as outras que possam existir neste Universo quase infinito.
Nesta comunhão cada pessoa é um ponto de encontro e uma possibilidade de comunhão amorosa para as outras. Por estar em coordenadas de universalidade e em estado de plenitude, as aspirações das pessoas têm realização imediata. Por outras palavras, no Reino de Deus, as aspirações de encontro, diálogo e comunhão de uma pessoa tornam-se imediatamente realidade.
No vosso Reino, Deus Santo, cada pessoa está assumida e incorporada na comunhão universal dos santos cujo coração é a comunhão da Santíssima Trindade. Na plenitude da vida eterna estamos realmente presentes a tudo e a todos. Não por nos deslocarmos a velocidades superiores à da luz, mas porque os desejos do nosso coração acontecem como emergência e realização simultâneas.
Esta dinâmica acontece dentro da organicidade e dinamismo da comunhão universal. Uma pessoa que se tenha excluído desta dinâmica de salvação e plenitude não se encontra a si nem aos outros, pois está fora das coordenadas da comunhão universal. Enquanto está em realização na História, o ser humano habita as coordenadas do espaço e do tempo. Deus, pelo contrário, não habita a espacio-temporalidade, pois está nas coordenadas da omnipresença comunitária do amor total.
Ainda antes de existir o Universo já existia o amor, pois Deus é amor. O amor é um impulso de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.
E o Universo surge a partir do diálogo e comunhão amorosa da Trindade Divina. Não como um prolongamento necessário, mas como a realização de um projecto que brotou do diálogo amoroso das pessoas divinas. E Deus imprimiu as suas impressões digitais no tecido da criação. Eis a razão pela qual a Humanidade, por ser constituída por pessoas, atinge a sua plenitude na comunhão com as pessoas divinas. Mediante a morte, o ser humano liberta-se das coordenadas biológicas, psíquicas, rácicas, linguísticas e espacio-temporais.
À luz da Fé, a morte surge realmente como o parto final através do qual a pessoa humana atinge a sua plenitude, isto é, a comunhão universal nas coordenadas de Deus. Mediante a incorporação na comunhão familiar da Santíssima Trindade, o ser humano é divinizado.
Isto quer dizer que a divinização não acontece como coisa individual, mas como resultado da assunção pessoal na comunhão universal da Família de Deus. Esta incorporação na comunhão divina assenta sobre dois pilares fundamentais: a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e a ressurreição de Cristo.
Pela encarnação, o divino enxerta-se no humano em Jesus Cristo. Como resultado deste enxerto, todos os seres humanos ficam com a possibilidade de se tornarem membros da Família Divina: “Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. E o Verbo encarnou e habitou entre nós” (Jo 1, 12-14).
Pela ressurreição de Cristo, a Humanidade é divinizada pelo Espírito Santo: “No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água viva”. Jesus disse isto referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que cressem nele. Com efeito, o Espírito Santo ainda não tinha vindo em virtude de Jesus não ter sido ainda glorificado” (Jo 7, 37-39).
O Espírito actuava no mundo desde a criação do homem. Foi a comunicação primordial do Espírito Santo que fez do Homem um ser vivente, diz o livro do Génesis (Gn 2, 7). Mas o Senhor ressuscitado comunica o Espírito de maneira divinizante, isto é, de forma intrínseca, de tal modo que o Espírito Santo faz de nós um todo orgânico com Cristo.
Jesus é a cepa da videira, diz o evangelho de João, e nós somos os ramos que recebem a seiva vital dessa cepa (Jo 15, 1-8). São Paulo diz esta mesma verdade mas com outro exemplo: nós somos os membros de um corpo cuja cabeça é Jesus Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27). Como ternura maternal de Deus e princípio animador de relações, o Espírito Santo confere dinamismo amoroso à nossa relação com Deus.
Eis o que diz São Paulo a este propósito: “De facto, todos os que são conduzidos pelo Espírito Santo são filho de Deus. Vós não recebestes um espírito que vos escravize. Pelo contrário, recebestes o Espírito Santo que faz de vós filhos adoptivos. É por este Espírito que clamamos “Abba”, ó pai. O próprio Espírito Santo dá testemunho no mais íntimo do nosso espírito de que somos realmente filhos de Deus. Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14.17).
Louvado sejais, Deus Santo, pelo bem que nos quereis!